domingo, 3 de maio de 2009

Outra realidade.

'Que P O R R A é essa?'

Ela estava linda. Os cabelos soltos em ondas castanhas. Eu adorava o cheiro do shampoo que ela usava e o vento naquele dia trazia a fragância até mim com falicidade. Vestia calças pretas, com uma de suas camisetas estranhas. Insistia um usa-las quando seu corpo merecia blusinhas de alça e degotes. E seus pés descalços com unhas vermelhas mal pintadas correram em minha direção em um gesto nervoso, contrariando a entonação e as palavras ríspidas que usara.
Eu, nunca fui muito bom com memória. Mas, desse dia tudo é tão lúcido... Como deveriam ser todos os outros antes dele. O que significa perder algo de verdade e de maneira irreversivel? Aquele dia nublava e ventava. Como ela gostava, dias de filme de terror. Eram dias que a inspiravam.

'Relaxa, meu bem. Fiz uma poesia pra ti.'

Eu adorava parecer cafageste, o estilo preferido dela. Mas não continha meu romantismo. Eu não podia demonstrar de outra forma. Na verdade, eu nunca dizia que a amava, nem mesmo quando me consicentizei disso.

'Poesia? Você sabe que eu não gosto. Poderia ter me trazido um doce qualquer. Cadê o dinheiro?'

Ela era direta. Quando decidimos entrar naquela história era por motivos pessoais. Mas aderimos ao altruísmo logo que descobrimos tudo o que envolvia aquela vida. Que do ponto de vista que alcançamos, era vida de todos. Mesmo que indiretamente. Mesmo que a pessoa não saiba. É dificil dizer agora sobre tudo o que passamos. Mas naquele dia descobri o sentido de tudo o que eu fazia.

'Leia a droga da poesia, Leandra. Trouxe o dinheiro, mas, todos sabemos que ela virá atras. Fica tudo em nossas mãos agora. TUDO.'

Eu não fazia idéia do quanto Leandra sabia. Isso importava muito naquela hora, dependendo do que ela sabia, eu podia estar com ela ou mudando radicalmente o plano de visão, eu podia representar sua morte.
Ela sentou na ponta da piscina puxou as calças até as canelas e enfiou os pés n'agua. Pegou o papel de minha mão assim que sentei ao seu lado e leu. Fitou algo no seu horizonte antes de responder.

'Ela não sabe que estou contigo... Você terá que transar com ela, Fernando?'

Então essa era sua preocupação perto do mundo que tinhamos de segurar nas costas? Como eu podia responde-la? Leandra eu sou casado com ela, mas é tudo profissional. Ou pior ainda: Meu amor, vou ter um filho com ela, por isso não podemos mata-la agora. Porque diabos eu estava metido nisso mesmo? É mesmo... Porque jamais conheceria minha Leandra... Suas roupas diferentes, seu sorriso de menina... Seus 19 anos que a primeira vista não carregavam tantas experiencias. Eu era um merda, jamais contaria. Não até que tudo tivesse acabado. Era uma luta de dois mundos. E um casamento entre ambos era tão irrelevante. Mas eu sabia. Jamais para Leandra isso seria irrelevante.

'Ainda não sei, meu bem. Mas com você? Eu vou? Ei, pare de pegar assim no meu pau! Você leu a poesia?'

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